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Ídolo do Santos, Renato troca vida de atleta pela de cartola no clube

Na sala de Renato, 39, no Centro de Treinamento do Santos, um quadro à esquerda da mesa mostra Robinho com a bola nos pés, partindo para driblar Rogério.

É a imagem do maior momento da carreira do volante, agora aposentado, e novo gerente de futebol do clube. O lance que ficou eternizado da final do Campeonato Brasileiro de 2002.

“Foi meu primeiro título profissional, o que tirou o Santos da fila e contra o Corinthians. Foi um marco. O momento mais importante da minha carreira”, disse à reportagem antes da partida contra o Sport, pela última rodada do Brasileiro de 2018.

Serve como lembrança para Renato de que no Santos tudo é possível. “Esse título [de 2002] aconteceu quando ninguém esperava”, afirmou.

O volante revelado pelo Guarani estava em faixas de protesto de torcidas organizadas em 2001. Ele era um dos responsabilizados pela derrota para o Corinthians na semifinal do Paulista, a sete segundos do fim da partida. A exigência era que Renato deixasse o Santos.

Dezessete anos depois, ele encerrou a carreira no clube e agora é dirigente. Um caminho improvável, como o elenco do Brasileiro de 2002, que acabou campeão.

Renato assumiu o cargo durante um ano em que tudo deu errado para o clube. O time terminou a temporada sem títulos, com uma crise política atrás da outra, tentativa de impeachment do presidente José Carlos Peres e eliminação na Libertadores causada pela escalação irregular de Carlos Sánchez.

O time não estará no torneio continental mais importante em 2019, após terminar o Brasileiro deste ano em nono.

Escolhido por sugestão de Cuca no meio do caos político que o Santos viveu, Renato tem o temperamento ideal não apenas para a função de bastidores, mas para ocupá-lo em momento conturbado.

Sempre tranquilo, com o tom de voz inabalável, ele era a imagem da calma como jogador e diz que não será muito diferente como dirigente. Era um volante que jamais reclamava da arbitragem ou dava um pontapé em adversário.

“É bom ter calma. Dentro de campo eu era assim, mas não quer dizer que não fique de sangue quente. Procurava sempre manter a tranquilidade porque fazendo isso, você consegue sair de qualquer situação. Não adianta bater desespero porque aí você vai fazer a coisa errada”, analisa.

Ele sabe que o estresse vai chegar, ainda mais no Santos, time em que se aposentou como ídolo e referência dos outros jogadores. Quando isso acontecer, ele usará a mesma forma da época de jogador.

Renato vai desabafar, mas fora do clube. Fará isso seja gritando para as paredes em casa, cantando alto em um videokê, abrindo a janela do carro para berrar para todos ou para ninguém em particular.

“Às vezes, faço isso. É uma coisa minha. Eu posso abrir a janela do carro e avisar a minha esposa: vou extravasar. Ou então estou em casa e digo que preciso extravasar. Ela responde: vai, vai vai”, afirma o agora gerente, se divertindo com a explicação.

Pelo Santos, ele foi campeão brasileiro em 2002 e 2004. Ganhou o Paulista em 2015 e 2016. Renato já se preparava para fazer a transição de jogador para outra função no futebol. Não imaginava ser dirigente. Em março, ao completar 400 jogos pelo clube, foi homenageado pela diretoria. Disse ao presidente José Carlos Peres que gostaria de continuar na Vila Belmiro.

Não acredita que vá sentir falta de jogar futebol profissional. Considera a possibilidade de ter saudade das conversas com os companheiros mas, com certeza, não terá qualquer nostalgia das concentrações.

Pendurar as chuteiras foi algo que colocou na cabeça que precisar fazer. Ele tem a disciplina para aprender a nova função, assegura. Da mesma forma que há 12 anos colocou na cabeça que não comeria mais hambúrguer de redes fast-food. Não bebe refrigerantes há seis anos.

“Eu parei por opção. Foi uma decisão minha, consciente”, completa.

O futebol não é o único interesse de Renato, dono de empresa de investimento imobiliário em São Paulo. Mas a chance de continuar envolvido com o Santos era boa demais para recusar. Ainda mais na próxima temporada, quando ele sabe que o clube não terá o mesmo poder de fogo no mercado que os rivais.

“Em São Paulo, somos o quarto orçamento. A gente tem consciência que do outro lado [no Palmeiras], o dinheiro é muito maior. Para sermos competitivos, precisamos de contratações pontuais de jogadores que entendem o que é o Santos, a filosofia do Santos, para batermos de frente com esses clubes. O Santos vai usar a base, como já vem usando.”

É um discurso de quem não irá atrás de grandes nomes, embora Renato não admita isso. Deixa claro que o clube não vai extrapolar o orçamento, não vai gastar mais do que pode. Lembra casos como o de Ricardo Oliveira, que estava esquecido nos Emirados Árabes, foi contratado pelo Santos em 2015 e chegou à seleção brasileira.

Ele sabe que isso pode ser uma armadilha. Trazer atletas veteranos, mas não consagrados, pode fazer com que a pressão venha da torcida, conselheiros e até diretoria para que os garotos das categorias de base sejam utilizados no profissional. Isso sempre acontece no Santos. Existe a possibilidade de os meninos não estarem prontos.

“Podemos passar por uma situação complicada e querer forçar o garoto. Não podemos queimá-lo. Isso não vamos fazer. Mas teremos de usar a base”, promete.

Ele já era o elo entre elenco e diretoria mesmo antes de assumir o cargo. Levava reclamações, pedidos e reivindicações. Agora será obrigado a também fazer cobranças. Sempre com o mesmo estilo calmo, sem estresse.

Gritar, apenas para as paredes em sua casa.

 
 
 

Notícias ao Minuto com informações da Folhapress

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