Sexualidade / Comportamento

Aprenda a gerir as suas emoções em nome de um final feliz

Seguramente que já a ouviu. “O coração tem razões que a própria razão desconhece” é talvez uma das frases mais ditas, escritas e/ou ouvidas da língua portuguesa. Reflete o amor, o poder dos sentimentos e, por incrível que pareça, as pessoas pouco inteligentes. Sim, é isso mesmo! Ao contrário do que possa pensar, ser inteligente não é apenas saber a raiz quadrada de dezasseis ou conhecer os principais rios da Europa.

A par com o raciocínio, as emoções e, sobretudo a forma como as dominamos, determinam o desenvolvimento e êxito de cada um. O nosso estado de espírito influencia, de forma significativa, a forma como agimos no trabalho, socialmente ou em família. Se tem a sensação de que anda à deriva num mar de emoções ou que tem sido essa a situação ultimamente, chegou a altura de pegar no leme e dar um novo rumo à sua vida.

Seguindo as coordenadas definidas por Pedro Almeida, Ana Ramires e Maria João Gouveia, entrevistados há uns tempos para a edição impressa da Saber Viver na condição de psicólogos do Núcleo de Psicologia do Desporto e Atividade Física do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), estamos seguros de que chegará a bom porto. E sem sobressaltos! Leia, de seguida, os seus conselhos e siga as suas recomendações.

Uma outra forma de inteligência

“Cada um é como é”, diz a sabedoria popular, mas isso não significa que fique sempre da mesma forma. Nas palavras de Ana Ramires, “todos nós temos um manancial de competências, sejam cognitivas ou emocionais”. Características distintivas que nos são intrínsecas. “Um perfil, algo que nos caracteriza nestas dimensões. A questão é identificar o quê, onde e como desenvolver essas capacidades”, diz.

Para esta especialista, é tudo uma questão de treino mas, para saber que aspeto merece ser aperfeiçoado, é necessário reconhecê-lo, como alerta. Esta aptidão para identificar as próprias emoções e as das pessoas que nos rodeiam e também de as ajustar às situações é a essência da inteligência emocional é algo de inato e que pode ser desenvolvido ao longo da vida, como também defendem outros especialistas.

QE versus QI

Durante anos duas ideias predominaram. A importância do quociente de inteligência (QI) para o êxito e as diferenças de inteligência emocional entre os sexos. No entanto, pesquisas junto de estudantes universitários, em que se avaliaram alunos de elevado QI ao final do curso e o sucesso que atingiram anos depois, revelaram que o aspeto cognitivo não era sinónimo de êxito mas, sim, o quociente emocional (QE).

Na eterna guerra dos sexos, embora, regra geral, as mulheres tenham reações mais interiorizadas, é difícil justificá-las apenas com os genes. Muitas devem-se aos “processos de socialização”, diz Maria João Gouveia. “A interiorização feminina e a exteriorização masculina resultam, em grande medida, dos padrões que são veiculados pelas pessoas que nos rodeiam. Provavelmente, as questões culturais serão muito mais notórias”, acredita.

Como se mede o quociente emocional

Medir o quociente emocional não é tarefa fácil. E também não pode ser feito com uma simples fita métrica. É preciso analisar a pessoa, o contexto em que se insere e as capacidades que tem ou que deve reforçar. “Todas as áreas em que nos movimentamos devem ser avaliadas e, por exibir um conjunto de competências que parecem muito ajustadas numa determinada área, isto não quer dizer nada nas outras”, diz Ana Ramires.

“Posso ser excelente no controlo emocional com os meus filhos e, diante dos meus pais, tremer como varas verdes”, exemplifica a especialista. A análise detalhada exige apoio especializado, contudo, visto que o quociente de inteligência pode ser moldado, mais do que saber se este é elevado, é importante surgem, como também sublinham outros especialistas, nacionais e internacionais.

Pare, escute e olhe

Ser simultaneamente protagonista e espetador é a melhor forma de desenvolver a sua inteligência emocional. Decerto já notou que perante uma situação, como um gesto romântico, tende a emocionar-se. Apesar da diversidade de reações possível, há um padrão que marca o nosso comportamento. Aprender a gerir as emoções passa por identificar esses padrões e mantê-los, caso sejam adequados, ou reforçá-los se necessário.

“Ver a situação, o que está envolvido e como resolvê-la reforça as nossas capacidades pessoais”, sublinha Ana Ramires, que alerta ainda para uma outra situação. “Vamos enraizando cada vez mais padrões ajustados que nos ajudam a lidar com a adversidade e, de um modo global, aumenta a autoestima, a qualidade de vida e até o nosso bem-estar», acrescenta a especialista.

Obstáculo ou desafio?

Na linguagem de inteligência emocional, a palavra ameaça é uma palavra tabu. Como realça Ana Ramires, “qualquer situação que acontecer na vida, por pior que pareça à primeira vista, é uma oportunidade de crescimento pessoal, uma forma de se superar a si próprio”. Isto aplica-se em todas as áreas da vida e até pode ser estimulado pela própria pessoa. Mas é preciso, antes, mentalizar-mo-nos disso.

Por exemplo, andar de montanha russa pode ser uma pequena vitória, como refere Pedro Almeida. Numa situação como essa, “estamos a expôr-nos a uma situação de stresse, mas de uma forma controlada e positiva”, sublinha o especialista. As situações desafiantes ajudam-nos superar metas pessoais, logo a desenvolver a inteligência emocional. A opinião é partilhada por muitos outros psicólogos comportamentais.

Jogada de antecipação

Quando se fala em emoções, é inevitável referir o stresse que marca os momentos de tensão. O truque para superar estas armadilhas é antecipá-las. Como explica Maria João Gouveia, “identificar as funções que vai desempenhar e as estratégias de que precisa para as realizar. Ver os recursos que tem e repetir a situação, ensaiá-la”, sublinha. Planear as tarefas, a nível pessoal ou profissional, torna essa ansiedade em fontes de energia positiva.

E, como nem tudo é previsível, também é preciso saber lidar com as situações que nos surpreendem, à semelhança de alguns imprevistos. O truque são os pontos de referência. Por vezes, o desconhecido leva o cérebro a ter reacções inadequadas. Por isso, a solução é procurar pontos comuns entre a situação nova e outra que já tenhamos resolvido. O cenário torna-se familiar e a nossa forma de agir mais ajustada.

Eu, tu… e o outro!

Expressões como “O que tenho a dizer, digo” soam-lhe familiares? Se a resposta é afirmativa, acautele-se pois está perante uma situação de risco. As reações impulsivas, características deste género de desabafos, são a antítese dos princípios da inteligência emocional. Embora possam ser uma catarse para a própria pessoa, as consequências do ponto de vista relacional são, muitas vezes, negativas.

Como refere Ana Ramires, é preciso “discutir consigo próprio para perceber até que ponto isso foi útil e o que terá de pagar no futuro”. O segredo de um bom relacionamento com os outros depende da capacidade de ouvir, de se colocar no lugar do outro e agir em consonância. Mais do que sorrisos, é esta atitude que marca uma comunicação positiva e empática, fundamental na maioria das relações, incluindo as românticas.

De pequenino…

Se é verdade que aprendemos a gerir as emoções por tentativas, também é certo que podemos fazê-lo desde a infância. Para tal, é preciso começar pelos pais, afirma Pedro Almeida, “pela relação com os filhos na forma como, por exemplo, lidam com os fracassos escolares”, como sublinha o especialista. Neste caso, focar atenção no esforço em vez do resultado ajuda a criança a evoluir.

As reações dos pais têm um importante impacto no desenvolvimento da criança. Por isso, se controladas podem ser bons estímulos educativos. Desde cedo deve-se “criar oportunidades para a criança saiba identificar a emoção, diferenciá-la e dar-lhe um nome”, sugere. “É uma riqueza imensa do ponto de vista das oportunidades de aprendizagem que devemos dar à criança em fase pré-escolar”, destaca ainda Maria João Gouveia.

Sinal vermelho

No quotidiano dos atribulados e exigentes dias que correm, as exigências são inúmeras e maiores do que há algumas gerações anteriores. Quer na esfera profissional como na pessoal, somos quase como atletas de alto rendimento, que têm de estar sempre ao seu melhor nível. Queremos sentir-nos realizados a todos os níveis, mas por vezes a fasquia está elevada e começamos a fraquejar.

Tal como os desportistas que se preparam para uma competição, também precisamos de treinar e de estarmos atentos aos sinais que o corpo envia. Estados de humor instáveis, dificuldade em adormecer ou relacionar-se com os outros, bloqueios ou explosões face a momentos de conflito são alguns exemplos. Como explica Ana Ramires, “tudo o que sejam comportamentos em défice ou excesso são indicadores de que algo não está bem”.

O termostato emocional

No universo da inteligência emocional, há uma noção fundamental, “o equilíbrio”, como aponta Maria João Gouveia. “Termos tempo para nós próprios, para depois podermos investir em termos profissionais, pessoais ou familiares”, exemplifica. Para equilibrar a balança, é preciso identificar as falhas no dia a dia e isso nem sempre é fácil. Existe uma tendência para sobrepor atividades e reduzir aquelas que nos dão prazer.

Segundo Ana Ramires, esse é o maior erro, porque “o que nos dá gozo é vivido com culpabilidade, deixa de ser aproveitado”. “Começa-se a ficar sobrecarregado e surge uma quebra, na maioria das vezes, no ponto que menos gostaríamos”, acrescenta ainda. Ter visibilidade sobre a sua vida e definir metas individuais, é a receita para evitar este problema e manter o seu termostato emocional bem regulado.

Palavras-chave essenciais

Estas são as quatro áreas que compõem a inteligência emocional:

– Identificar as suas próprias emoções e as de quem o rodeia

– Utilizar as emoções para facilitar as reacções e pensamentos

– Compreender os estados emocionais, o que os desencadeia e altera

– Gerir as emoções em si próprio e no relacionamento com os outros

Diário de bordo para uma navegação a dois

1. Uma estratégia simples para aprender a conhecer-se a si próprio e a aumentar o seu QE. Defina uma escala de zero a dez, sendo que o valor mínimo se refere a um momento negativo e o máximo a um extremamente positivo.

2. Registe a cada dia o estado emocional e as situações que lhe causaram prazer ou desconforto. Compare os registos uma semana depois e identifique o que desencadeou os estados emocionais.

3. Elabore uma estratégia. Aperfeiçoe as reações desajustadas, antecipe os pontos de stresse e defina metas pessoais.

Texto: Manuela Vasconcelos

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