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Especialista pede mais segurança nos cruzeiros

Capitão do Costa Concordia infringiu normas, mas não é o único culpado, diz especialista

O naufrágio do navio de cruzeiro Costa Concordia, ocorrido na última sexta-feira (13) na costa da Itália, foi fruto de uma situação “completamente atípica e injustificável” de descumprimento das regras marítimas internacionais, segundo o presidente da ABTN (Associação Brasileira os Tripulantes em Navios de Cruzeiro), Alexandre Castro. Para ele, as normas estão adequadas, mas o treinamento dado a “tripulantes não marítimos” (como fotógrafos e garçons) e passageiros dos navios de cruzeiro está desatualizado.
Especialista em segurança no mar, Castro confirmou que o acidente foi provocado por um erro humano e defendeu que as regras internacionais de navegação estão em dia, mas disse também que é preciso reformar algumas das normas de segurança para navios de cruzeiro.

No entanto, apesar de admitir que o capitão do Costa Concordia, Francesco Schettino – preso logo após o acidente, acusado de homicídio pelas 11 vítimas já confirmadas no naufrágio – errou, Castro alerta que o comandante pode não ser o único culpado pela tragédia.

- Esse comandante não errou sozinho. Outros oficiais também deixaram a situação chegar aonde chegou. Equipamentos para evitar o acidente, eles tinham. Esses erros foram um efeito dominó, e ele não deve ser o único condenado.

De acordo com Castro, está claro que o acidente foi provocado por uma série de erros – como se aproximar perigosamente da costa sem observar os equipamentos de radar para detectar a rocha que rasgou parte do casco do navio.

Mas, para o especialista, a parte mais “dolorosa” do acidente está na postura do capitão ao abandonar o navio. Segundo Castro, Schettino violou uma “convenção mãe” da segurança marítima, a Convenção SOLAS (Salvaguarda da Vida Humana no Mar, na sigla em inglês) ao abandonar o barco antes dos passageiros.

- Em primeiro lugar, ele [o capitão] é a autoridade máxima dentro do navio, até porque as normas internacionais de gerenciamento de segurança delegam a total autoridade com relação às emergências para ele. Isso vai completamente contra as regras de segurança.

O capitão não pode coordenar as operações de comandante ou qualquer outro tipo de situação de emergência de terra firme ou do porto. Para você ter uma ideia de como ele descumpriu as regras de segurança, nem o capitão do Titanic abandonou o barco, e naquela época ainda não existia nenhuma legislação.

Segundo Castro, o acidente pode ter sido provocado por uma postura “romântica” do capitão, que queria supostamente homenagear um amigo da ilha de Giglio, onde o navio afundou após se aproximar demais da costa.

- Ele foi extremamente infeliz nessa decisão. Ele pode ter feito isso por amizade, romantismo, simpatia etc., mas tem horas em que você precisa ter 100% de seriedade.

Passageiros precisam de treinamento

Professor de técnicas de segurança marítima e especialista em gerenciamento de crises e controle de pânico, Castro afirma que as normas de segurança da IMO (Organização Marítima Internacional, órgão máximo da lei marítima mundial) não estão defasadas e que o descumprimento destas leis levou ao acidente.

No entanto, ele alerta que o treinamento dado a “tripulantes não marítimos” (como fotógrafos e garçons) e passageiros dos navios de cruzeiro em controle de pânico é inadequado.

- Os passageiros levam na brincadeira e a IMO tem que dar mais atenção a isso. Acredito que o naufrágio do Costa Concordia possa levar a mudanças nesse sentido. O passageiro do navio de cruzeiro precisa ter uma informação mais clara sobre as regras de segurança principalmente antes de embarcar. No momento em que ele é levado ao treinamento atual, que não é tratado com irresponsabilidade, ele não presta a devida atenção. O passageiro de primeira viagem até dá atenção às instruções, mas o mais experiente não. Por isso, uma das principais causas de acidentes marítimos é familiarização excessiva com os navios.

Além disso, segundo Castro, garçons, salva-vidas, cozinheiros e outros profissionais que não fazem parte da tripulação marítima essencial ainda recebem um treinamento aquém do que é necessário para o gerenciamento de crises e controle de pânico. Muitas vezes trabalham mais horas do que é permitido pela IMO aos demais tripulantes, mas ainda possuem um papel importante nos momentos de crise em um navio de cruzeiro.

Desde o naufrágio do Titanic, em 1912, mais de cem resoluções foram criadas para dar mais segurança às viagens marítimas – e a cada novo acidente grave, a IMO continua a estabelecer novas regras.

De acordo com Castro, a expectativa agora é de que o naufrágio do Costa Concordia leve a entidade a discutir novas convenções de segurança e controle de pânico entre passageiros e tripulantes.

No entanto, outro ponto abordado pelo especialista é com relação aos móveis nos navios de cruzeiro – que normalmente não estão “pregados” ao chão devido a questões de “luxo”.

- Isso [móveis soltos] compromete muito a segurança, principalmente no caso de mau tempo. Muitas vezes os projetos de navio cruzeiro não levam em conta a segurança, mas sim a beleza e o luxo da embarcação. Tem que travar os moveis no chão! Essa pode ter sido a causa do desaparecimento de algumas pessoas no Costa Concordia. Elas podem estar em setores do navio presas atrás de móveis.

* Colaborou Caio Proença, estagiário do R7.com


Data Publicado em 23 de janeiro de 2012 por Davi Lambertine
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